› ENTREVISTA
Novembro de 2009 | Produção e reportagem: Priscila Hayashi | Fotos: divulgação, cedidas

Longos processos burocráticos barram agilidade em negociações com empresas brasileiras
O consultor japonês afirma que apesar da imagem positiva do país no mundo, somente reduzindo a burocracia o Brasil estará realmente de portas abertas para a entrada de empresas estrangeiras.
Homem de negócios da NTT Group do Japão, Kazuo Moriya especializou-se na área internacional após quase 20 anos atuando na empresa. Consultor da JICA (Japan International Cooperation Agency) em países como Filipinas, Zâmbia e México, em 1998 Moriya foi enviado ao Brasil para ocupar o cargo de Presidente da NTT do Brasil na área de telefonia móvel. Mesmo sem experiências anteriores no país, o empresário adaptou-se aos modelos de negócios e ao idioma local e em pouco tempo foi nomeado membro da Comissão de Conselho da Tele Sudeste e Presidente da Câmara de Indústria e Comércio do Japão no Rio de Janeiro. O atual consultor de recursos humanos especializado em tecnologia da informação, fala das mudanças nas áreas econômica e política brasileiras de 1990 a 2003 - período em que esteve no país - e que favoreceram seus negócios e critica um sistema burocrático lento e dispendioso, do ponto de vista de empresário japonês.
CT - Em 1990, quando o senhor ingressou na NTT do Brasil o país atravessava um período de instabilidade econômica. Como foi seu ingresso em um novo mercado?
Kazuo Moriya - Para mim, o Brasil da década de 1990 representou hiperinflação, mudanças de preços e intervenções governamentais, o que não víamos no Japão. Fechamos grandes negócios, mesmo trabalhando sem lucros e desafiando um mercado instável. O cenário mudou completamente após a entrada do Plano Real, surtindo efeito positivo para nossos negócios. As privatizações das estatais também mudaram o rumo das negociações. As medidas geraram estabilidade e o poder de compra da classe média cresceu, expandindo a quantidade de pessoas com acesso à telefonia celular.
CT - Para se adaptar ao novo país, o senhor afirma que adotou os costumes ocidentais de “fazer negócios”. Que diferenças foram observadas na fase inicial?
Kazuo Moriya - O que mais me impressionou foi a forma “top-down”(de cima para baixo) adotada para fechar negócios. Logo na fase inicial das negociações tratamos com pessoas que ocupam um cargo alto na empresa e que tem o poder de decisão, tornando o processo mais rápido - no Japão estamos habituados ao processo contrário. Mas se de um lado vi agilidade nas negociações com empresas, do outro, deparei-me com processos burocráticos que desaceleravam e impediam o fechamento dos negócios. A fiscalização excessiva nos fez perder bastante tempo.
CT – O Brasil surpreendeu o mundo depois de passar pela crise econômica sem muitas lesões e mostrando recuperação rápida. Isso pode ajudar a desfazer a imagem negativa do país no meio empresarial japonês?
Kazuo Moriya - O Brasil já vem ganhando a confiança dos japoneses desde o sucesso do Plano Real e das medidas adotadas no Governo Lula. Mas empresas de médio e pequeno porte ainda mantém certa desconfiança com relação à segurança no setor financeiro.
CT – O Senhor acredita que os produtos Made in Brazil podem concorrer com alguma vantagem com os produtos asiáticos no mercado interno japonês?
Kazuo Moriya - Acredito em diversas possibilidades de negócios entre os dois países e sinceramente não vejo sentido na comparação de produtos brasileiros e asiáticos produzidos fora do Japão. O baixo custo atraiu fábricas japonesas para territórios como China e Malásia pelo baixo custo de produção. Mas o Japão também investe em produtos de alto custo como a importação de aeronaves da Embraer. No setor têxtil, a criatividade e a qualidade também ganham espaço no mercado internacional, apesar das altas despesas com o transporte e importação de tecido.
CT - Como o senhor enxerga o país hoje? O Brasil tem atrativos para empresários japoneses?
Kazuo Moriya - O Brasil tem o maior mercado consumidor da América Latina. Tem também uma política democrática, um histórico de desenvolvimento e experiência industrial, além de regras fixas para negociações. Os recursos naturais e matérias primas básicas são abundantes no país. Nos últimos anos fala-se muito de negociações bilaterais na área de biocombustível e produção de metais raros. O país é certamente visto com muito interesse pelos japoneses.
CT - Em sua opinião, que fatores ainda impedem esses interesses de tornarem-se negociações concretas?
Kazuo Moriya - Mesmo encontrando flexibilidade em acordos fiscais, o chamado “Custo Brasil” ainda é um dos problemas que enxergo como uma barreira para a entrada do capital externo no país. É preciso reformular a legislação fiscal, melhorar o sistema logístico – ainda com custo muito alto – diminuir a possibilidade de problemas trabalhistas, assim como o custo para a contratação de mão de obra.
Background
NTT DoCoMo do Brasil
A NTT DoCoMo Telecomunicações do Brasil foi criada em março de 1999, com dois objetivos principais. O primeiro deles era monitorar as operações da Telefônica; o segundo propósito da NTT no Brasil era prestar consultoria ao nascente mercado de internet móvel. A empresa decidiu fechar sua subsidiária brasileira em 2003, com a afirmação de ter alcançado suas metas estratégicas no mercado e com negócios estabelecidos no Brasil. A NTT DoCoMo é a maior operadora de telefonia celular do Japão e que faz parte do grupo NTT.
NTT:
www.ntt.co.jp
NTT do Brasil:
www.br.ntt.com
Entrevistas:
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