› ENTREVISTA

Novembro de 2009 | Produção e reportagem: Priscila Hayashi | Fotos: divulgação, cedidas

“A aquisição de jatos da Embraer trazem a confirmação de uma nova era de importação de tecnologia de ponta brasileira”

O especialista em Comércio Exterior que acompanha o Brasil há 4 décadas fala de mercados em expansão e oportunidades de negócios

Quando decidiu aprender os idiomas português e espanhol, nos anos 1950, o japonês Teiji Sakurai tinha em mente os slogans “América Latina, continente do século 21” e “Gigante do século 21”. Ele afirma que esperou por 40 anos, que a propaganda se tornasse realidade, mas hoje acompanha com orgulho, o desenvolvimento de países latinos que sempre admirou.
Desde sua primeira visita ao Brasil, em 1973, através da Jetro (Organização de Comércio Exterior do Japão), Sakurai se apaixonou pelas pessoas que encontrou. “O mais atraente no país, sem sombra de dúvidas, é o brasileiro. Do ponto de vista de um japonês, eles são livres, vigorosos e possuem um grande coração. Às vezes são exagerados, mas isso os torna intereressantes também”, define sobre sua primeira impressão do país.
Especialista em Comércio Exterior, ele foi enviado pela Jetro para o México (1974 – 1977), para o Chile (1984 – 1989), para a Espanha (1989 – 1992) e para a Itália (1996 – 1999). Quando retornou ao Japão, foi nomeado Diretor da Jetro São Paulo (2003 – 2006), e retornou mais uma vez ao Brasil.
Atualmente, Sakurai é professor de língua estrangeira na Universidade Kansai Gaidai e continua a percorrer o Japão levando a idéia de que é preciso falar mais sobre o Brasil e divulgando à classe empresarial japonesa que é preciso investir mais nas relações bilaterais com o apoio de órgãos como a APEX (Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos) e a Jetro.

CT - Quando esteve no Brasil, o senhor passou por choques culturais em termos de negociações com empresários e governo brasileiro?
Teiji Sakurai - Gostaria de indicar alguns pontos que pude observar no Brasil. (1) velocidade na decisão. As companhias, assim como os empresários japoneses demoram demais em tomadas de decisões. (2) decidir primeiro e pensar nos detalhes depois. O estilo brasileiro é conflitante com o estilo de pensar dos japoneses, onde todos os detalhes são calculados antes da decisão de negócios. (3) empresários japoneses têm trauma do Brasil. Eles ainda carregam a imagem do Brasil dos anos 1980 e 1990, o que não pode mais acontecer. (4) a classe empresarial brasileira valoriza a “pessoa”. O japonês ainda valoriza “instituição” ou “sistema”. Esses são, na minha opinião, os pontos que ressaltam as diferenças culturais nos negócios entre os dois países.

CT – O acesso ao mundo de negócios globalizado tem permitido negociações entre países de diferentes línguas, culturas e credos. Mas o Brasil ainda encara a distância física e a concorrência com países asiáticos para chegar ao Japão. O senhor acredita que o Brasil ainda é um país isolado na visão japonesa?
Teiji Sakurai - Não acredito que em termos de negócios o Brasil seja isolado. Sempre vim afirmando que em termos de concorrência pelo mercado mundial, a América Latina é mais tímida que a Ásia. O Brasil é líder absoluto na América Latina e não encontra concorrentes à sua altura. Se o país começar a enxergar a China e a Índia como verdadeiros rivais, acredito que as realções comerciais podem podem se desenvolver de uma forma bem mais interessante.

CT – A mão de obra e custos de produção na China, Vietnã e outros países da Ásia são atraentes para o Japão. Há menos custo com logística, outro atraente para as empresas japonesas. Como o senhor acha que os produtos brasileiros podem ingressar no mercado japonês?
Teiji Sakurai - Há muitas possibilidades. Dependendo da natureza do produto, há grande potencial para a entrada no setor alimentício, que inclui bebidas e produtos industrializados. Há um mercado consumidor brasileiro no Japão de quase 300 mil pessoas, que podem divulgar esses produtos. Em termos geográficos, o país é muito distante. Por isso precisará contar com um forte investimento da APEX (Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos) e planejamento - mantendo a persistência - a médio prazo (3 a 5 anos). Em relação a outros produtos, à medida em que o país encontrar uma parceira sólida através de constantes transações bilterais e crescimento de investimentos japoneses, será possível vislumbrar um ambiente propício para a otimização das relações de comércio exterior. Acredito que já observamos mudanças concretas, como no caso da aquisição de jatos da Embraer pela JAL, que trazem a confirmação de uma nova era de importação de tecnologia de ponta brasileira.

CT - O senhor acredita que pequenas e médias empresas japonesas podem encontrar espaço para expandir seu mercado no Brasil?
Teiji Sakurai - Qualquer medida de expansão internacional de uma empresa de pequeno ou médio porte não é tarefa fácil. Baseio minha afirmação em três obstáculos: recursos humanos, capital e informação. Uma das saídas nesse caso seria o Brasil atrair empresas japonesas de grande porte para o país, provocando o interesse das pequenas e médias pelo Brasil. É muito difícil explicar sobre o Brasil para japoneses, pois acredito que é preciso estar lá para ver e sentir o potencial do mercado brasileiro.

CT - O senhor acompanhou o desenvolvimento do Brasil nos últimos anos e continua trabalhando para trazer informações do país para o Japão. O senhor acredita que ainda há carência de dados sobre o Brasil no Japão?
Teiji Sakurai - Quando trabalhei em São Paulo entre 2003 e 2006, o volume de informações sobre o Brasil divulgados pela imprensa japonesa era realmente tímido. Com o decorrer do tempo, as informações vieram aumentando e acredito que em 2008, quando foi comemorado o centenário da imigração, alcançou-se o ápice nos noticiários e na mídia japonesa sobre o país. Finalmente a mídia percebeu a importância de suprir essa demanda e de lá para cá as informações só vêm aumentando. Acredito que a Jetro também vem trabalhando para informar sobre um “Brasil tecnologicamente desenvolvido” e também tem influenciando positivamente a imagem do país.

CT - Com a posse do novo governo democrata (em setembro de 2009), o senhor prevê mudanças positivas nas relações com o Brasil?
Teiji Sakurai - Houve uma mudança radical no cenário político japonês com a mudança do Partido Liberal Democrata para o Partido Democrata do Japão, mas a importância do Brasil não saiu da pauta do novo líder Yukio Hatoyama, Primeiro Ministro do Japão. O Brasil irá eleger um novo presidente em 2010 e acredito que independetemente da subida da Dilma ou Serra ao poder, o importante é que as medidas político-econômicas não sofram mudanças radicais. Acredito que as relações entre os países continuarão a ser promissoras.


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